Ministro Marcos Pontes celebra 60 anos do voo de Yuri Gagarin, 1º homem a ir ao espaço

Os 60 anos do primeiro voo de um homem ao espaço, o soviético Yuri Gagarin, comemorado nesta segunda-feira, 12 de abril, foi tema de uma entrevista do ministro da Ciência, Tecnologia e Inovações, astronauta Marcos Pontes, à BandNews TV.

A bordo da nave Vostok 1, o cosmonauta soviético Yuri Gagarin se tornou o primeiro homem a ser lançado ao espaço em 12 de abril de 1961, há exatos 60 anos. O voo de Gagarin foi o primeiro marco da corrida espacial travada entre Estados Unidos e União Soviética, abrindo uma nova fronteira na exploração espacial.

Na conversa com o jornalista Eduardo Castro, da Bandnews, o astronauta Marcos Pontes destacou a importância desse primeiro voo para a humanidade e lembrou da preparação de cinco meses realizada no Centro de Treinamento de Cosmonautas, na Rússia, para se tornar o primeiro brasileiro em uma missão ao espaço. Confira a entrevista.

BandNews TV Ministro, o que significa os 60 anos do primeiro voo suborbital? Hoje em dia a gente está mandando maquinário já para Marte, o que parece muito simplório. O que representou aquilo?

Marcos Pontes –  12 de abril de 1961. O voo do Yuri Gagarin partiu do Cazaquistão. Diga-se de passagem, decolando da mesma plataforma de onde eu decolei, em 29 de março de 2006. O meu voo acabou de fazer 15 anos também. Aquele momento marcou a humanidade. Primeiro porque representou um grande avanço na capacidade tecnológica do ser humano, de poder sair do próprio planeta e orbitar o planeta. Segundo porque marca também aquele desejo intrínseco do ser humano de explorar além dos limites, que é estar no espaço. A partir dali, abriu-se toda uma nova fronteira da exploração espacial, que hoje nós seguimos, com coisas indo pra Marte, por exemplo, e muitas outras coisas que vêm pela frente, como missões tripuladas para Marte, para a Lua e outros lugares.

BandNews TVNaquele momento havia uma corrida que ia além da espacial. Era uma corrida armamentista, entre duas potências. Isso fez parte desse contexto também.

Marcos Pontes – Fez parte. Inclusive houve um pronunciamento do presidente Kennedy, em Houston, dizendo “nós escolhemos ir pra Lua e fazer as outras coisas, não porque elas são fáceis, mas porque elas são difíceis”. Eu acho que dentro dessa frase dele, colocando aquela tarefa de até o final da década levar astronautas à Lua e retornar, representa bem essa instância da corrida espacial naquele momento, mas também representa o quanto o espaço tem a capacidade de trazer o melhor das pessoas para realizar coisas que parecem impossíveis à primeira vista. Aquilo foi capaz de mudar um país todo, como os Estados Unidos. É certo que naquele momento havia muito medo, um medo mútuo, o que não é bom, mas deu o disparo para tudo isso que temos hoje. Se a gente for prestar atenção, o momento que a gente vive agora, de pandemia, que traz o medo para o planeta inteiro, nossa espaçonave Terra, é na dificuldade que a humanidade desenvolveu seus maiores avanços tecnológicos.


BandNews TV – O senhor foi lançado ao espaço da mesma plataforma de Yuri Gagarin e também passou pelo programa russo. Como foi essa passagem por lá?

Marcos Pontes – Foi um momento muito especial da minha vida. Fui selecionado pela NASA em 1998. Demora dois anos para se formar como astronauta na parte básica e muitos anos depois na fase avançada. Eu fiquei 20 anos na NASA e foi um período muito interessante. Eu terminei o curso básico em 2000 e, naquele momento, eu esperava ser escalado para voar no ônibus espacial em 2001. Não aconteceu. Em 2003 tivemos o acidente com o Columbia e todos os voos ficaram parados. Em 2005 me ligaram e disseram que eu ia voar com a Rússia. Naquela época não era normal os astronautas americanos voarem na Rússia. Eu fui um dos primeiros, do lado americano, a ir para lá. Foi uma experiência muito interessante. Eu confesso que o desafio era enorme porque sou tipo um engenheiro de bordo. Eu entendia de sistemas do ônibus espacial, da estação espacial, do nosso lado, mas não do lado russo. E de repente eu fui pra Rússia e tive cinco meses para aprender a fazer minha tarefa de engenheiro de voo. E, além disso, nos primeiros três meses eu tive de aprender russo para poder operar os sistemas deles. Mas a recepção e o trabalho junto com os russos foram muitos bons. Eu tive uma interação imediata. Até hoje tenho amigos por lá. Aquele trabalho com eles me engrandeceu, me deu uma melhoria tanto no lado profissional quanto no lado pessoal e cultural.

BandNews TV – O senhor fez amigos lá?

Marcos Pontes – Sem dúvida. Aliás, a tripulação a gente considera como irmãos. Se pensar bem, nós estamos em condições no espaço que são de risco. O ambiente externo não permite erro. Qualquer erro você pode matar os seus amigos e um erro deles pode te matar. É estressante porque tem muita coisa para fazer num tempo muito curto. Existe um stress natural muito grande.  Então a gente desenvolve essa parceria muito grande. Eu considero todos eles como irmãos. A gente, literalmente, defendeu a vida um do outro. E isso vai perdurar a vida toda.



Fonte: MCTI