Movimentos reforçam tensão no flanco leste da Otan, enquanto Moldávia também reporta violações de seu espaço aéreo
A segurança no Leste Europeu voltou a ser colocada à prova na madrugada desta quarta-feira. A Romênia, país-membro da Otan e vizinha imediata da Ucrânia, mobilizou aviões de combate após a suspeita de que um drone de origem russa teria violado seu espaço aéreo. No mesmo período, a Moldávia relatou um episódio semelhante. Desde o início da invasão russa à Ucrânia, em 2022, ambos os países têm registrado uma série de intrusões aéreas, algumas resultando na queda de fragmentos de drones em solo nacional.
Incursão detectada e resposta imediata
De acordo com o Ministério da Defesa romeno, sensores de vigilância aérea identificaram, por alguns minutos, o sinal de um drone que teria penetrado cerca de oito quilômetros dentro do território romeno antes de desaparecer dos radares. A detecção ocorreu na região de Tulcea, no sudeste do país, área próxima ao delta do Danúbio e considerada sensível devido à proximidade com a Ucrânia.
A resposta militar foi imediata: dois caças alemães, integrados ao destacamento aéreo da Otan na Romênia, foram acionados para monitorar a situação. A mobilização ocorreu “devido a ataques russos”, segundo o comunicado oficial. Em paralelo, autoridades emitiram alertas telefônicos para a população local, reforçando a gravidade da ocorrência.
Moldávia relata violação semelhante
Quase simultaneamente, a Moldávia informou que um drone sobrevoou seu espaço aéreo durante a noite, em trajetória de baixa altitude, aproximadamente 100 metros, no sul do país. Segundo o Ministério da Defesa moldavo, o equipamento não foi detectado pelos sistemas de vigilância, mas a confirmação da incursão veio após troca de informações com Ucrânia e Romênia.
A Moldávia, que mantém relações tensas com Moscou e lida com a instabilidade na região separatista da Transnístria, classificou o episódio como mais uma demonstração da fragilidade aérea que os conflitos no entorno impõem.
Redução de tropas americanas na Romênia aumenta apreensão
O episódio ocorre semanas após um movimento estratégico que chamou atenção na diplomacia europeia: a redução do contingente militar dos Estados Unidos na Romênia.
No final de outubro, o Comando Militar dos EUA para Europa e África, sediado na Alemanha, confirmou que uma brigada baseada na Romênia retornará aos Estados Unidos “conforme programado”. A remoção representa cerca de 800 militares, aproximadamente metade do atual contingente americano no país, que soma 1.700 soldados.
O Ministério da Defesa romeno já havia antecipado a decisão, destacando que ela faz parte de uma “guinada para a região Indo-Pacífica” na estratégia de Washington. Tanto o governo romeno quanto autoridades americanas afirmam que a mudança não compromete a segurança europeia, garantindo que os EUA “mantêm presença robusta” no continente.
Sinais estratégicos preocupantes
Analistas, porém, adotam um tom cauteloso. Para George Scutaru, ex-assessor de Segurança Nacional da Presidência romena, a diminuição de tropas, ainda que numericamente limitada, pode transmitir percepções equivocadas a Moscou.
Em entrevista à AFP, Scutaru observou que o Kremlin pode interpretar o movimento como evidência de que “o Mar Negro não é tão importante para os interesses americanos na Europa”. A Romênia possui 245 km de litoral na região, considerado vital para corredores de transporte e para o fluxo de armamentos destinados às forças ucranianas.
Em um cenário marcado por violações frequentes do espaço aéreo, ataques de drones e tensões ampliadas, qualquer sinal de desalinhamento entre aliados da Otan pode influenciar diretamente o cálculo estratégico russo.
Um flanco que permanece em alerta
A nova incursão reforça a vulnerabilidade de países situados no entorno da guerra e expõe a complexidade da defesa aérea diante do uso crescente de drones de longo alcance. A Romênia, assim como a Moldávia, tenta equilibrar medidas de segurança reforçadas com a necessidade de manter estabilidade política e evitar uma escalada direta.
Enquanto isso, a Otan continua a monitorar a região com atenção redobrada, consciente de que o Mar Negro se tornou uma das zonas geopolíticas mais sensíveis do planeta desde 2022 e de que qualquer violação aérea, por menor que pareça, pode carregar implicações muito maiores.
