Prêmio reconhece qualidade de produções científicas da Fiocruz

A 9ª edição do Prêmio Anual IOC de Teses Alexandre Peixoto destacou cinco projetos concluídos no último ano por estudantes de doutorado dos Programas de Pós-Graduação Stricto sensu do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz). A cerimônia de premiação foi realizada nesta terça-feira (14/9), com apresentações dos trabalhos pelos recém-doutores. O evento integrou a programação da Semana da Pós-graduação, que ocorre em formato virtual devido à pandemia de Covid-19. As produções científicas premiadas apresentam avanços em diferentes áreas do conhecimento, com contribuições ligadas à vigilância de doenças, tratamento do câncer, estudo da obesidade e ensino para pessoas com deficiência físico-motora.

Pesquisas desenvolvidas em cinco programas de pós-graduação do IOC foram reconhecidas na sessão virtual de entrega do Prêmio Alexandre Peixoto
 

Com trabalhos concluídos em 2020, os estudantes premiados foram afetados pela pandemia de Covid-19 na fase final de suas pesquisas. Além de redigir as teses no contexto da emergência de saúde pública, alguns também precisaram se dividir para atuar em pesquisas ligadas ao novo coronavírus nesse período. As cerimônias de defesa foram realizadas virtualmente, sem a possibilidade de reunir familiares e amigos para celebrar o momento tão aguardado na formação científica.

A presença majoritária de novas cientistas mulheres entre os autores das teses selecionadas foi destacada pelo vice-diretor de Ensino, Informação e Comunicação do IOC, Paulo D’Andrea, que também frisou a qualidades das pesquisas conduzidas no Instituto. “Nunca é uma tarefa fácil para os Programas de Pós-graduação escolherem os melhores trabalhos. Nós temos ciência de que o conjunto de teses do IOC prima pela qualidade e pelo rigor científico. Imagino a sensação de integrar esse seleto grupo de alunos, entre tantas teses com alta qualidade que temos no Instituto. Espero que vocês continuem com essa dedicação ao longo de suas carreiras, e tenho certeza de que terão muito sucesso. Esse é apenas o começo”, afirmou Paulo.

Abaixo, os estudos condecorados nesta edição

Obesidade e ação hormonal

Pessoas obesas apresentam perda da sensibilidade cerebral ao hormônio da saciedade, chamado de leptina. Produzida pelos adipócitos, células que acumulam gordura no organismo, essa substância atua no cérebro, regulando o apetite e o peso corporal. Na obesidade, altos níveis de leptina circulam na corrente sanguínea, mas não há sensação de saciedade. A tese de Lohanna Palhinha do Amaral investigou uma questão importante: que efeitos a leptina pode causar fora do sistema nervoso central em animais obesos? E quais os efeitos da leptina em suas células produtoras, os adipócitos?

Por meio de experimentos em camundongos, considerados como modelo para estudo da obesidade, o trabalho mostra que a leptina atua sobre o sistema imune, mesmo em animais obesos, que apresentam resistência cerebral ao hormônio. Entre os efeitos periféricos da substância, estão a atração e a ativação de células de defesa e o estímulo para a produção de substâncias inflamatórias. Além disso, o trabalho aponta uma ação da leptina in vitro até então não estudada: em culturas de células, o hormônio induz a formação de novos adipócitos (adipogênese).

“Estudos in vivo são necessários para confirmar esses efeitos no organismo, mas, caso sejam reproduzidos, podem indicar mais um papel relevante da leptina fora do sistema nervoso central. Isso pode impactar de forma importante a obesidade, uma vez que, devido à resistência ao efeito central da leptina apesar dos altos níveis séricos, provavelmente são seus efeitos periféricos que prevalecem durante a doença”, pontua Lohanna.

A pesquisa Caracterização dos efeitos periféricos da leptina: ativação de leucócitos em camundongos com obesidade induzida por dieta e indução da adipogênese foi desenvolvida no Programa de Biologia Celular e Molecular. O trabalho foi orientado por Clarissa Menezes Maya Monteiro, pesquisadora do Laboratório de Imunofarmacologia, e co-orientado por Patrícia Torres Bozza, chefe do mesmo Laboratório. A estudante recebeu bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Medicina personalizada

A medicina personalizada para o tratamento do câncer, que busca desenvolver um remédio específico para cada paciente, foi o foco da tese de Alessandra Jordano Conforte, defendida na Pós-Graduação em Biologia Computacional e Sistemas. Orientado por Nicolas Carels, pesquisador do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS/Fiocruz), e co-orientado por Fabrício Alves Barbosa da Silva, pesquisador do Programa de Computação Científica (PROCC/Fiocruz), o trabalho utilizou métodos de bioinformática para analisar dados genéticos de pacientes com câncer e identificar alvos moleculares potencialmente mais eficientes para combater a doença em cada caso.

Intitulada Caracterização de alvos terapêuticos e modelagem da rede de sinalização no contexto da medicina personalizada do câncer, a pesquisa partiu de informações disponíveis no banco de dados online conhecido como Atlas do Genoma do Câncer( TGCA, na sigla em inglês). O estudo foi realizado em duas etapas. Na primeira, foram considerados dados referentes a 475 pacientes acometidos por nove tipos de tumor. Já na segunda, foram analisadas informações de 70 casos de câncer de mama. Com análises individualizadas, os pesquisadores identificaram, em cada caso, os genes que se encontravam mais ativados nas células tumorais do que nas células não tumorais.

A aplicação de abordagens de bioinformática permitiu traçar redes de interação entre os genes, caracterizar os perfis genéticos associados à maior gravidade e identificar combinações de genes que deveriam ser inibidos no tratamento da doença. “Esse resultado dá mais um passo no desenvolvimento da medicina personalizada. Com uma análise computacional avançamos para chegar a uma metodologia automatizada, que permita inserir os dados do paciente e descobrir a combinação otimizada de alvos terapêuticos para o melhor tratamento”, afirma Alessandra, que cursou o doutorado com bolsa da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

Rotas dos vírus das hepatites B e C

Os trajetos traçados pelos vírus da hepatite B (HBV) e hepatite C (HCV) nas sociedades podem esconder respostas importantes sobre como controlar possíveis dispersões no futuro. Com foco no Brasil e no continente americano, a tese de Natália Spitz Toledo Dias investigou a origem e disseminação do HBV e do HCV por meio da evolução molecular e filogeografia, e avaliou a diversidade genética e mutações de relevância clínica de genomas do HBV.

A reconstrução da dinâmica espacial e temporal dos vírus das hepatites B e C permitiu observar que a introdução de subgenótipos do HBV nas Américas ocorreu por meio de rotas migratórias dos séculos XVIII e XIX; bem como sugerir que a introdução de um subtipo de HCV no Brasil ocorreu nos anos 80. Já as investigações nos diferentes genótipos e subgenótipos do HBV observaram mutações associadas ao escape imune, resistência aos antivirais e desenvolvimento do carcinoma hepatocelular.

“Nós geramos genomas completos do HBV e do HCV, algo que ainda é muito escasso no Brasil e que limita a compreensão sobre o potencial de dispersão dos diferentes genótipos desses vírus. Pouco a pouco vamos contribuindo para a realização de novas descobertas nos estudos das hepatites virais”, afirmou a recém-doutora. O trabalho Diversidade genética e filogeografia dos vírus das hepatites B e C nas Américas foi realizado no Programa de Pós-Graduação em Biologia Parasitária sob orientação de Natalia Motta de Araujo, do Laboratório de Virologia Molecular.

Acessibilidade para estudantes com deficiência físico-motora

Em uma pesquisa qualitativa desenvolvida no Brasil e em Portugal, por meio de um doutorado sanduíche na Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, na cidade do Porto, Aimi Tanikawa de Oliveira buscou responder a seguinte pergunta: como formar professores para atuar no ensino de ciências com alunos com deficiência físico-motora da educação básica utilizando a tecnologia assistiva?.

“É importante que alunos com deficiência físico-motora tenham acessibilidade e ela pode ser garantida por meio da tecnologia assistiva, uma área que engloba estratégias, metodologias e recursos que ampliam as habilidades funcionais de quem precisa”, pontuou a recém-doutora.

Na etapa inicial, o estudo focou em conhecer o trabalho desenvolvido por docentes com estudantes com deficiência físico-motora e analisou as dificuldades que esses alunos apresentaram durante a participação em propostas pedagógicas. Ao todo, foram acompanhados 16 estudantes e 21 professores nos dois países. A partir da avaliação, foram produzidos recursos de tecnologia assistiva que tiveram eficácia verificada na prática pelos próprios alunos. Com os resultados, oficinas pedagógicas foram desenvolvidas e aplicadas para que os docentes tivessem contato com os conhecimentos necessários relativos ao ensino de ciências para a identificação da funcionalidade, análise e produção dos recursos da tecnologia assistiva.

“Após as oficinas, os profissionais da educação se sentiram com autonomia para solucionar as questões dos alunos e buscaram soluções na tecnologia assistiva para acessibilizar o ensino de ciências, compreendendo a importância desse conhecimento específico no contexto da inclusão”, concluiu Aimi. O trabalho O ensino de ciências e a deficiência físico-motora: discutindo a formação docente com enfoque na tecnologia assistiva foi orientado por Rosane Moreira Silva de Meirelles, do Laboratório de Inovações em Terapias, Ensino e Bioprodutos e desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Ensino em Biociências e Saúde.

Um sistema de vigilância do sarampo mais eficiente

Ao identificar pontos que poderiam ser aprimorados no monitoramento do sarampo no Brasil, o recém-doutor Fabiano Marques Rosa desenvolveu um trabalho analítico sobre o desempenho do sistema de vigilância epidemiológica na interrupção da circulação do vírus autóctone do sarampo no Brasil entre os anos de 2001 e 2018. Intitulada Análise crítica do sistema de vigilância do sarampo no Brasil, 2001 a 2018, a tese foi desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Medicina Tropical do, sob orientação da pesquisadora Marilda Siqueira, chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo, e pelo pesquisador Luiz Antonio Bastos Camacho, da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz).

A pesquisa observou ações favoráveis que contribuíram para a conquista do certificado de erradicação do sarampo em 2016, emitido pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas/OMS), como também as imprecisões que permitiram novamente a transmissão sustentada da doença no Brasil a partir de 2018 – levando à perda do certificado. Para isso foram avaliados dados como o cumprimento de indicadores de qualidade da vigilância estabelecidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a capacidade de detecção precoce e resposta rápida frente aos surtos decorrentes da importação viral e campanhas de vacinação e taxa de cobertura e homogeneidade vacinal. “As falhas que impedem o alcance dos indicadores de vigilância devem ser corrigidas para que o Brasil volte novamente a ser um país livre do sarampo. Precisamos de um sistema de vigilância mais refinado”, destacou Fabiano.

Fonte: Fundação Oswaldo Cruz