Pesquisadores do Butantan estudam fatores associados à gravidade da Covid-19

Publicado em: 20/09/2021

Com a pandemia de Covid-19, o Butantan uniu os esforços de diversas áreas para entregar o melhor de cada uma a favor do entendimento do novo coronavírus. Entre elas está o Laboratório de Sinalização e Dor (LEDs), do Centro de Desenvolvimento e Inovação do instituto, que juntou a expertise de diferentes pesquisadores científicos à equipe médica da Rede Municipal de Taubaté, atuante na linha de frente à Covid-19, para estudar as alterações dos parâmetros lipídicos (de gordura) no sangue de pacientes acometidos pela Covid-19.

A pesquisadora científica Sonia Aparecida Andrade, responsável por esta parceria, explica que para conduzir o estudo, os pesquisadores analisaram coletas sanguíneas de quatro grupos diferentes: o de controle, com indivíduos saudáveis e sem histórico de infecção por Covid-19, e os de pacientes, divididos em casos leves, moderados e graves. Parte da pesquisa foi recentemente aceita para publicação pela revista científica Blood Cells, Molecules and Diseases.

Os resultados sugerem que a infecção pelo vírus SARS-CoV-2 causa alteração dos perfis lipídicos no sangue dos pacientes associada à gravidade da doença. Os pesquisadores observaram que, de acordo com a severidade da doença, os parâmetros lipídicos se modificam e geram uma dislipidemia, caracterizada principalmente pela diminuição do HDL (o chamado colesterol bom) e pelo aumento nos níveis de triglicérides no sangue. Esta mesma dislipidemia foi observada em pacientes que não possuíam diabetes mellitus do tipo 2 ou obesidade como condição pré-existente, confirmando que a alteração não é decorrente da existência de comorbidades. As análises demonstraram ainda que um aumento na razão entre neutrófilo e linfócitos (NLR), um parâmetro inflamatório, acompanha a dislipidemia e a severidade da doença. Todos esses indicadores são importantes para o funcionamento do corpo e possuem uma faixa considerada normal.

 

Acordo com a Farmacopeia na próxima etapa do estudo

Em uma segunda etapa, os pesquisadores vão avalizar o perfil de moléculas – como proteínas e peptídeos, e seus metabólitos – no sangue dos pacientes. Isso será feito por meio de tecnologias ômicas (proteômica, metabolômica, entre outras), que vão permitir que os pesquisadores analisem as diferenças nos parâmetros hemostáticos dos voluntários e os correlacionem à severidade da doença. Depois dessa etapa, com duração de pelo menos um ano, possivelmente serão revelados marcadores moleculares após infecção pelo SARS-CoV-2.

Essa fase da pesquisa acontecerá em colaboração com o Centro de Excelência para Descobertas de Alvos Moleculares (CENDT) e contará com o apoio da Farmacopeia Brasileira (responsável por estabelecer os parâmetros do código oficial farmacêutico do país), que recentemente oficializou acordo com o Butantan para o desenvolvimento do estudo. “Essa união é de suma importância, já que a Farmacopeia vem com um conjunto de especialistas que contribuem para métodos padronizados, otimizando o trabalho de dados”, comemora Sonia.

Além da Farmacopeia e do CENTD, a pesquisa conta com o apoio da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp) de Botucatu (SP) e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN). Entre voluntários, cientistas, estudantes e colaboradores, há cerca de 150 pessoas envolvidas na investigação. “Os pesquisadores estão trabalhando de forma integrada para viabilizar rapidamente a obtenção dos resultados, tão importantes diante do que estamos vivendo”, conta Sonia. “Essa pesquisa é importante porque visa o melhor entendimento da fisiopatologia da doença. E quando você conhece a fisiopatologia da doença, você tem como estudar e buscar formas de tratamento”, completa.

 

“Acredito que todo mundo que trabalha com pesquisa pensa ‘o que posso fazer pelo próximo?’”

É com essas palavras que a pesquisadora e diretora do LEDs, Gisele Picolo, responsável pelo estudo, descreve o sentimento de fazer parte do grupo de colaboradores que participaram da pesquisa. “Estar dentro do Butantan nessa fase, em que o instituto colocou tudo à disposição da população, e poder contribuir, para nós pesquisadores é muito gratificante”, diz.

Química de formação, Sonia Andrade conta que desde sua pós-graduação trabalha com caracterização e purificação de proteínas. Por meio desses procedimentos, ela estuda potenciais novos agentes terapêuticos, que visam minimizar alterações na hemostasia humana, e atua nas áreas de alterações da hemostasia após acidente com toxinas e melhoria de antivenenos. Seu primeiro desafio como cientista quando chegou no Butantan, há 11 anos, foi conciliar a experiência em química de proteínas – sempre focada em estudos de alterações na coagulação sanguínea humana – e a toxinologia, uma das linhas de pesquisa do instituto, que estuda venenos, envenenamento e toxinas de venenos.

Gisele completa ainda que um dos papéis do LEDs, independente das pesquisas em relação à Covid-19, é entender por que os acidentes com animais peçonhentos causam dor intensa no local, e analisar os mecanismos envolvidos na inflamação. Os pesquisadores têm a missão de avaliar a possibilidade de um tratamento complementar à soroterapia para as reações locais, estudar potenciais analgésicos na composição de venenos e compreender novos medicamentos para dores intratáveis, principalmente a crônica.

Acesse as diversas publicações do Laboratório de Sinalização e Dor (LEDs) no Repositório digital do Butantan

 

 

 

Fonte: Instituto Butantan