Entidades da saúde manifestam pesar

A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) manifestaram pesar pelo falecimento de Antonio Ivo de Carvalho em seus sites. As instituições reafirmaram a importância do sanitarista para o Sistema Único de Saúde (SUS) e agradeceram por sua dedicação em prol da saúde da população. Veja abaixo:

Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco)

A Saúde Coletiva despede-se de Antonio Ivo de Carvalho. O pesquisador e militante da Reforma Sanitária e dos direitos sociais do povo brasileiro faleceu na tarde desta quinta-feira, 10 de junho. Antonio Ivo compôs o Conselho Deliberativo da nossa Associação por duas gestões – de 2006 a 2009 e de 2009 a 2012. Acima de tudo, foi agente central na construção do campo da Saúde Coletiva, do Sistema Único de Saúde (SUS) e dos processos de participação e controle social na saúde, além de ser humano reconhecido por sua afetuosidade e brilhantismo, como atestam tantas mensagens de amigas, colegas, lideranças, coletivos e instituições em sua homenagem.

Nascido no Rio de Janeiro em 9 de junho de 1950, Antonio Ivo graduou-se em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1974. Em pleno recrudescimento da Ditadura Civil-Militar, foi um ativo militante do movimento estudantil. “Eu sou dessa época, quando movimentos estudantis de todo o mundo saíram às ruas por mais direitos”, disse anos depois à Comissão da Verdade da Saúde. Foi preso com demais 12 estudantes e ficou seis meses no DOI-Codi, órgão militar conhecido pelas práticas mais duras de tortura no estado, e pelas quais passou.

Contudo, tal vivência só reforçou sua ligação e vontade de trabalhar diretamente e em prol da sociedade. Em 1975 fez a especialização em Saúde Pública pela então Escola Nacional de Saúde Pública, já integrada à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e a residência médica.

De 1975 a 1982 esteve diretamente envolvido em ações de saúde na Baixada Fluminense, tendo montado e coordenado o Programa de Saúde Materno Infantil da Diocese de Nova Iguaçu, trabalhado como técnico da Federação dos Órgãos de Assistência Social e Educacional (FASE), e assumido a Secretaria Municipal de Saúde de São João de Meriti.

Em paralelo, trabalhou como pesquisador associado do Programa de Estudos Sociais de Saúde – PESES/ENSP, sob a coordenação de Sergio Arouca. Após ingressar no serviço público em 1983, pelo Instituto Nacional do Câncer, foi requisitado para assessorar a presidência da Fiocruz em 1985, atuando nos coletivos das Ações Integradas de Saúde (AIS) no Estado do Rio de Janeiro, quando conduziu a articulação e a integração das unidades do Ministério no RJ.  

Diretamente ligado no processo de construção de uma nova visão de saúde, participou da assessoria da Comissão Organizadora da VIII Conferência Nacional de Saúde, em 1986 e, posteriormente, da Comissão Nacional da Reforma Sanitária. Sua dissertação de mestrado – ‘Conselhos de Saúde no Brasil’ – foi publicada como livro, uma referência para os estudos dedicados à temática, seguida de pesquisas, artigos e outras publicações dedicadas às relações entre democracia, participação e saúde, municipalização e regionalização; e promoção da saúde. Foi vice-presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) de 1996 a 1998, tendo permanecido vinculado à militância cebiana como membro do Conselho Consultivo da entidade nas gestões posteriores.

Das diversas atividades que desempenhou na Ensp, foi o responsável pela criação e primeira coordenação (1998 a 2004) do Programa de Educação a Distância; coordenador do Curso de Aperfeiçoamento Gestão em Saúde; coordenador da Escola de Governo em Saúde em 2001. Esteve à frente da Direção da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP) por dois mandatos, de 2004 a 2013; quando a instituição desenvolveu inovações em diversas áreas, com a criação da vice direção de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico; a consolidação dos serviços assistenciais no Centro de Saúde Germano Sinval Faria (CSEGSF) e no Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh), e a modernização do parque laboratorial da Escola, entre outras. Foi também fundador e primeiro coordenador do Centro de Estudos Estratégicos da Fundação (CEE-Fiocruz), de 2014 até abril deste ano.

A última participação de Antonio Ivo nos eventos da Abrasco foi no 11º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, o Abrascão de 2015, no qual falou sobre democracia e saúde no último Grande Debate do Congresso, juntamente com Maria Lúcia Werneck Viana e Eduardo Levicovitz.

A multiplicação da vida de Antonio Ivo seguirá, além do legado de militância e de produção técnica e intelectual, também na caminhada e lembrança de seus quatro filhos: João Rodrigo, Letícia, Maria e Guilherme, e de seus três netos: Helena, Inácio e Rafael.

“É grande a tristeza que sentimos hoje com a partida de nosso querido colega Antônio Ivo. Não há dúvida que ele deixará um vazio enorme para todo o campo da saúde coletiva brasileira”, diz Gulnar Azevedo e Silva, presidente da Abrasco, que se soma a demais pesquisadores, instituições e coletivos em homenagem. Leia aqui o conjunto das declarações.

Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes)

O Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) presta sua homenagem a seu ex-Vice-presidente Antonio Ivo de Carvalho, que partiu para outras terras. Líder secundarista, universitário na Faculdade de Medicina da UFRJ, para qual passou em primeiro lugar no vestibular, enfrentou os cárceres e a tortura da ditadura militar na luta por um Brasil justo, democrático e soberano.

Dos bancos da Faculdade, coerente com seus compromissos de vida e luta, antes de ingressar nos domínios da Saúde Coletiva, buscou alimento nos movimentos populares de Nova Iguaçu, onde participou do nascente Movimento de Amigos de Bairro e da reestruturação da Federação de Associações de Moradores do Estado do Rio de Janeiro – FAMERJ. Em nome desta, fez intervenção histórica na 8ª Conferência Nacional de Saúde.

Nos primórdios da Nova República, engaja-se na construção do Sistema Único de Saúde, na experiência reformista da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro de 1987 a 1990.

A partir de 1991, passa a ser pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz, onde virá a criar a Escola de Governo e tornar-se-á seu Diretor, impulsionando toda uma geração de sanitaristas. Organizador de livros, autor de capítulos e artigos sempre argutos e comprometidos no campo das políticas de saúde.

Até recentemente buscava pensar estratégias para o fortalecimento da Saúde como direito universal de cidadania, à frente do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz.

Deixa um legado de muita solidariedade, amor, humor e compromisso com as lutas e movimentos populares em sua longa e fértil trajetória em Nova Iguaçu, no Rio e no Brasil. Foi toda uma vida em defesa da democracia, dos direitos humanos e por sociedade solidária e digna para todos.

Um lutador incansável por uma sociedade do bem viver. A saúde pública brasileira está de luto, mas Ivo continua presente como inspiração e testemunho.

Fonte: Fundação Oswaldo Cruz