Em conferência africana, Fiocruz reforça compromisso com parceria Sul-Sul

A Conferência sobre a Expansão da Produção de Vacinas na África, organizada pela União Africana e pelos Centros de Controles de Doenças da África (CDC África), realizada nesta segunda e terça-feira (12 e 13/4), teve a presidente da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Nísia Trindade Lima, como uma das palestrantes. Durante a Sessão 8 (13/4), sobre a Parceria com Fundações para a Produção de Vacinas, Nísia reafirmou o compromisso da instituição com uma agenda Sul-Sul para apoiar as necessidades do continente africano no fortalecimento de seu sistema de saúde, preparação para emergências de doenças e acesso da população a cuidados médicos.

A sessão, mediada por Winnie Byanyima, diretora executiva do Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV/Aids (Unaids), contou com as participações de Trevor Mundel, presidente da Divisão de Saúde Global da Fundação Bill & Melinda Gates, nos EUA; Reeta Roy, presidente e chefe executiva da Fundação MasterCard, no Canadá; Gordon Dougan, chefe do Wellcome Infection Health Challenge, da Universidade de Cambridge, Reino Unido; Paul Pattinson, diretor da Oxford International Biomedical Ventures, no Reino Unido; Etleva Kadilli, diretora da Divisão de Suprimentos do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef); e Padmashree Gehl Sampath, conselheira sênior do Global Access in Action Program, do Centro Berkman Klein da Universidade Harvard, EUA. O objetivo do encontro era criar um diálogo que leve a potenciais parcerias entre fundações e produtores de vacinas africanos.

 

“Não devemos nos questionar se é possível fazermos. Tudo começa com um simples passo. A Índia começou em algum lugar. Vinte anos atrás, eles estavam sentados [conversando] como estamos agora”, destacou o virologista John Nkengasong, diretor do CDC África, durante breve participação no encontro, numa referência ao país que hoje é um importante produtor de insumos e genéricos.

 

“Apartheid da vacina”

 

Comparada a outras regiões, a produção de vacinas na África ainda está em sua infância, destacou Winnie Byanyima, e o continente busca apoio para avançar nesse campo. A mediadora lembrou que a pandemia de Covid-19 não só está testando os sistemas de saúde, como ressaltou a dificuldade no acesso às vacinas. Para ela, existe uma espécie de “apartheid da vacina”, lembrando que sete países africanos ainda não receberam até agora uma única dose. “Essa é uma questão estratégica para o desenvolvimento e segurança da África”, afirmou.

 

Nísia, por sua vez, destacou a longa história de cooperação da Fiocruz no continente, em especial com países de língua portuguesa, que renderam iniciativas como o estabelecimento da Sociedade de Medicina Moçambicana e a implementação de bancos de leite. A Fiocruz conta ainda com um escritório em Moçambique para articular, monitorar e avaliar programas de cooperação desenvolvidos por suas unidades no continente.

 

Segundo a presidente da Fiocruz, a Fundação desenvolveu nas últimas décadas uma abordagem que vê a saúde como um fator de desenvolvimento, compreendido no conceito de Complexo Econômico-Industrial da Saúde. Foi estabelecido um conjunto de políticas públicas de parcerias entre o Estado e a iniciativa privada, que incluiu o fortalecimento da produção local de exames de última geração, medicamentos e vacinas. “Essa concepção mostra que as bases de produção, ciência, tecnologia e inovação locais são essenciais para dar sustentabilidade econômica aos sistemas de saúde, favorecendo também a cooperação global pautada no intercâmbio solidário de tecnologias”, explicou. “Esse vínculo na relação entre a formação tecnológica local nos países menos desenvolvidos e a cooperação global tem sido demonstrado pela experiência da cooperação do Brasil com a África na área de vacinas e medicamentos, incluindo a transferência de capacidade tecnológica e produtiva, e não apenas a comercialização e o fornecimento de produtos”.

 

A Fundação está disposta a discutir novas parcerias e acordos de transferência de tecnologia para aumentar a capacidade de produção de vacinas da África. Nísia destacou que também seria interessante utilizar as iniciativas que ocorrem nos países do Brics – grupo composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul – para que a África possa participar de um esforço global de produção e inovação em saúde, que vai além de remédios e vacinas.

 

Sobre a Covid-19, ela lembrou a parceria com a AstraZeneca e a Universidade de Oxford para aquisição de vacinas e transferência de tecnologia, destacando que a Fiocruz já produz aproximadamente um milhão de doses por dia a partir de Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) recebido da empresa. Destacou ainda que as unidades da Fundação passam por adaptações para produzir IFA no segundo semestre.

 

Nísia destacou ainda dois grandes desafios que acredita que devam ser enfrentados para que o futuro da saúde contribua para um mundo mais equitativo e justo pautado pelo desenvolvimento sustentável: o fortalecimento da ciência e da tecnologia, enfrentando a desigualdade de conhecimento, inovação e produção básica; e um esforço global para guiar uma base econômica, produtiva e tecnológica vindo de diferentes países com diferentes níveis de desenvolvimento.

 

“Sem uma distribuição mais simétrica das capacidades de produção e inovação, a crescente concentração e monopolização da saúde tornarão inviáveis as respostas nacionais e globais baseadas na universalidade e na equidade”, disse a presidente da Fiocruz.

 

Desenvolvimento e inclusão

 

Participante do encontro, Reeta Roy defendeu a criação de condições, unindo os setores acadêmico e privado, para o desenvolvimento de talentos e tecnologias – algo que disse ser fundamental também para a produção de vacinas. “É preciso pensar na inclusão. Há muitos jovens talentosos, mas que encontram muitas barreiras. A inclusão de gênero também precisa ser discutida”, destacou a presidente da Fundação Mastercard.

 

Ao se referir à produção de vacinas, Paul Pattinson disse que é necessário pensar também na questão a longo prazo, encarando problemas como capacidade para construção de instalações, profissionais especializados, como engenheiros e químicos, além de técnicos. Ele defendeu a transferência de conhecimento e a criação de centros de excelência no continente, trazendo também especialistas de fora. Assim como Roy, ele destacou ser necessário que as mulheres tenham as mesmas oportunidades.

 

Trevor Mundel sugeriu maximizar os esforços, usar estruturas já existentes, levar novas tecnologias para a África, além de usar experiências de empresas, para obter progressos. Ele citou iniciativas da Fundação Bill e Melinda Gates em Senegal e África do Sul. Já Padmashree Gehl Sampath destacou que é crítico obter financiamentos para que testes e diagnósticos possam ser feitos. “As promessas precisam se materializar. A produção local é chave para o sucesso”, disse. 

 

Fonte: Fundação Oswaldo Cruz