Dominar Mediterrâneo Oriental? Analistas falam sobre planos turcos de criar base no Chipre

Militares turcos procuram inaugurar em breve uma base naval na República Turca do Chipre do Norte, não reconhecida internacionalmente, para proteger seus interesses no mar Mediterrâneo, comunicou a mídia estatal turca citando o comando da Marinha do país.

Além disso, a Turquia está estudando a possibilidade de recuperação da base aérea de Gecitkale no norte do Chipre, utilizada anteriormente pela aviação militar turca.

A Sputnik Turquia entrevistou especialistas turcos e gregos que comentaram as informações sobre os planos de Ancara.

De acordo com Ata Atun, ex-membro do conselho consultivo do ex-presidente da República Turca do Chipre do Norte, Dervis Eroglu, a criação de uma base de Ancara nas condições atuais nessa zona seria a iniciativa mais eficaz, apontando que no momento muitos países estão utilizando instalações de infraestruturas militares na ilha.

“A Rússia assinou um tratado especial com as autoridades do Chipre grego que prevê a utilização do porto naval de Limassol e da base aérea Andréas Papandréou. Um acordo similar foi firmado com a França. O Reino Unido dispõe na ilha das bases de Acrotíri e de Deceleia […] Os norte-americanos também utilizam as bases britânicas. Nestas condições a Turquia deve firmar, o mais breve possível, um acordo oficial com o governo da República Turca do Chipre do Norte.”

Segundo Atun, a Turquia deve construir no território do Chipre do Norte uma base naval, uma base aérea e uma base terrestre.

“Na qualidade de base da Força Aérea, a Turquia poderia utilizar o aeródromo de Gecitkale, enquanto a Marinha poderia receber para sua utilização o porto de Gemikonagi”, assinalou o entrevistado, frisando que tal seria um passo importante na situação que se tem vivido no Oriente Médio.

Quando perguntado sobre a provável reação negativa dos cipriotas gregos pela construção da base turca, Atun frisou que a reação da Grécia, da UE, dos EUA ou do Reino Unido não deve ser levada em conta.

“Será que as autoridades gregas perguntaram aos cipriotas turcos quando estiveram firmando contratos com a Rússia e a França sobre a utilização do porto de Limassol e da base aérea Andréas Papandréou? Não. Da mesma forma, eles não receberam autorização da Turquia quando firmaram o contrato para extração de gás natural na zona econômica especial. Por esta razão, a República Turca do Chipre do Norte também não precisa receber autorização da administração grega”, frisou.

Por sua vez, o vice-presidente do partido de esquerda nacionalista Vatan, major-general da Força Aérea turca aposentado Beyazit Karatas, comentou assim os planos de Ancara:

“Israel e os EUA utilizam bases militares no Chipre para seus próprios interesses. Alguns países da União Europeia e OTAN usam as bases britânicas situadas no Chipre para efetuar operações no Mediterrâneo Oriental e na Síria”, assinalou.

“A administração do Chipre grego, se aproveitando dos tratados existentes e concedendo o direito a outros países, além do Reino Unido, de usarem as bases militares em seu território, torna, de fato, a ilha em ‘uma casa para todos’, o que pode levar a uma corrida armamentista na região”, frisou o político.

De acordo com ele, essa realidade encoraja a Turquia a dar passos simétricos, nomeadamente, iniciar a criação no território da República Turca do Chipre do Norte de uma base naval permanente, que deve ser completada com uma base para a Força Aérea.

Beyazit Karatas destacou que junto com os passos militares, uma atenção especial deve ser dada às medidas econômicas.

“Não podemos nos limitar a medidas militares na ilha. A Turquia deve empreender passos para o seu desenvolvimento econômico. Uma vez que ficou claro que já não se trata da possibilidade de haver a unificação da ilha sob uma única administração, é necessário dar novos passos para promover o reconhecimento internacional da República Turca do Chipre do Norte.”

Enquanto isso, o professor de geopolítica na Academia Militar das Tropas Terrestres da Grécia, Konstantinos Grivas, frisou em seu comentário à Sputnik que as pretensões turcas fazem parte de uma grande estratégia de Ancara.

“A evolução dos eventos faz parte da grande estratégia de Ancara que visa impor o domínio total da Turquia no Mediterrâneo Oriental”, frisou.

De acordo com ele, neste sentido a Turquia visa estabelecer um controle muito rígido sobre a área. O professor destacou que se trata de um elo da cadeia de decisões estratégicas de Ancara que são extremamente agressivas em relação ao Chipre e à Grécia.

“Ele [Chipre] deve elaborar sua própria estratégia de contenção, além de alocar fundos em suas capacidades militares”, indicou.

FONTE: Sputnik