A outra guerra na Síria: os enfrentamentos velados entre o poder aéreo da OTAN e Rússia

É fato incontestável que as Forças Armadas da OTAN e da Rússia travam uma guerra paralela, notadamente empregando seus meios aéreos, enquanto simultaneamente dizem combater o Estado Islâmico. Nesta série de dois textos sobre tais enfrentamentos o autor pretende esclarecer alguns dos seus detalhes cruciais.

Por Sérgio Santana*

Em 11 de dezembro último, o presidente da Federação Russa Vladimir Vladimirovitch Putin anunciou oficialmente pela terceira (e ao que parece) última vez a retirada de considerável parte do efetivo militar daquela nação então baseada em território sírio, aparentemente pondo um fim às confrontações entre o seu poder aéreo e o dos EUA, cujo episódio mais recente, a aparição “surpresa” de um Sukhoi Su-35S “Flanker-G” na retaguarda de um Lockheed Martin F-22A “Raptor” que então seguia aeronaves de ataque Sukhoi Su-24 “Fencer-M” durante uma missão de bombardeio às posições do grupo terrorista Estado Islâmico em fins de novembro, foi divulgada pelo Ministério da Defesa russo em 9 de dezembro.

Apesar de oficialmente unirem forças contra um inimigo comum que atende por denominações variadas (“Daesh”, “EI”, “ISIS, “ISIL”, “Califado”, além de “Estado Islâmico”), é publicamente aceito que as forças militares norte-americanas – que também lideram uma coalização de dezenas de países, incluindo nações árabes – e as suas contrapartes russas estão na Síria por objetivos geopolíticos opostos.

Enquanto os Estados Unidos e seus aliados procuram derrubar o governo de Bashar Al-Assad, de modo a substitui-lo por alguém que consolide a hegemonia política e econômica do Ocidente na região (a Síria é a única nação ainda fora da zona de influência dos Estados Unidos naquela porção do Oriente Médio) e por isto apoie o Estado Islâmico e outras organizações de oposição ao governo sírio (repetindo a estratégia fracassada de utilizar terceiros para conseguir seus objetivos, evitando confrontos diretos, assim como patrocinou guerreiros “mujahedins” no Afeganistão contra a então União Soviética na década de 1980), o governo russo não mede esforços para manter o mandatário sírio no poder; assim pode continuar usufruindo da sua única instalação militar no Mar Mediterrâneo, o Porto de Tartus, bem como ampliar a sua influência política na região.

Esta oposição de objetivos (que do lado russo já presenciou o emprego até de bombardeiros estratégicos Tupolev Tu-22M3 “Backfire-C”, Tu-95 “Bear” e Tu-160 “Blackjack”, o que demonstra a importância deles para o Kremlin) tem resultado em confrontações veladas entre aeronaves dos dois lados, envolvendo uma estrutura de comando e controle pouco divulgada até então, em mais uma prova de que a Guerra Fria não acabou com a queda do Muro de Berlim em 1989 ou a dissolução da União Soviética dois anos depois.

A primeira dessas confrontações ocorreu ainda em 2015, quando já havia aeronaves norte-americanas no teatro de operações. Entre os dias 3 e 5 de outubro daquele ano caças Sukhoi Su-30SM “Flanker-C” invadiram o espaço aéreo da Turquia e travaram em seus radares caças F-16C da Força Aérea daquele país, a THK (Türk Hava Kuvvetleri). Após o incidente, autoridades russas se encontraram com suas contrapartes turcas e estabeleceram procedimentos de segurança que previam o uso de duas frequências de rádio: a 121.5MHz, internacionalmente adotada em situações de emergência, e a 243.0MHz, exclusiva de aeronaves militares para o mesmo fim, além de que planos de voo das aeronaves russas voando perto da fronteira turca seriam emitidos com antecedência de pelo menos 12 horas.

Entretanto, no dia seguinte ao encontro, um pequeno VANT (Veículo Aéreo Não Tripulado) russo Orlan-10 ingressou em espaço aéreo turco e foi abatido, o que demonstra a fragilidade das relações entre as duas partes. Fragilidade esta que atingiu o nível máximo em 24 de novembro, quando um de dois Su-24M2 “Fencer-D” (então pertencente ao 277º Regimento de Aviação de Bombardeiros), código tático “Branco 83” tendo decolado da Base Aérea de Hmeimin na Síria em missão de ataque terrestre, cada um com quatro bombas de fragmentação OFAB 250-270, foi abatido por um míssil AIM-120 AMRAAM lançado de um F-16C turco, após ingressar momentaneamente em espaço aéreo daquele país.

O que se seguiu foi a ejeção segura dos dois tripulantes a partir de uma aeronave que se transformou em um rastro de fogo; entretanto, enquanto desciam de paraquedas, os mesmos foram recebidos por rajadas de armas portáteis de grosso calibre disparadas por rebeldes contrários ao governo sírio. O comandante do “Fencer-D”, Ten-Cel. Oleg Anatolyevich Peshkov, foi imediatamente morto, enquanto que o seu navegador, Cap. Konstantin Muratkin conseguiu escapar e ser recolhido por forças especiais russas e rebeldes pró-Assad, em uma missão de busca e salvamento em combate (Combat-SAR) que enfrentou alguns percalços, como o abate, por rebeldes adversários, de um dos helicópteros Mil Mi-8AMTSh “Hip-H” que trazia a equipe de resgate, forçando o pouso da aeronave, que teve um dos seus ocupantes, um fuzileiro naval, morto a tiros. Após abandonado, o Mi-8 foi destruído por um míssil norte-americano BGM-71 TOW, em mais uma comprovação de que existe outro conflito por trás do aparente esforço conjunto em derrotar o Estado Islâmico.

O elemento de comando e controle por trás da reação turca                 

O abate do “Fencer-D” foi resultado da insistência russa em provocar a Turquia (um dos mais importantes membros da OTAN, inclusive até então abrigando bombas nucleares B61 da Aliança na sua Base Aérea de Incirlik), inclusive ignorando as recorrentes chamadas via rádio na frequência internacional de emergência, ouvidas até mesmo por aeronaves comerciais na ocasião. A esta insistência somam-se as hostilidades na Siria, que resultaram desde 2011 no estabelecimento, pela Turquia, de pelo menos cinco patrulhas aéreas de combate (cada uma com dois F-16C Block 40/50, quantidade que aumenta se uma aeronave russa se aproxima do território turco), ao longo da sua fronteira de 1.200km com a Síria.

Devido à extensão do espaço aéreo a ser coberto, da necessidade de manter-se em voo por longo período de tempo e de conservar um estado de prontidão, os Fighting Falcon turcos (dos Esquadrões 181 ou 182 em Diyarbakir e Konya, respectivamente) são apoiados por aeronaves reabastecedoras Boeing KC-135 e de alerta antecipado Boeing 737 AEW&C (também baseada em Konya), operados pela THK.

Estas representam o elemento mais importante deste “pacote de missão”, visto que são especializadas em comando e controle de forças aliadas; no caso específico do Boeing 737AEW&C, do qual a THK recebeu quatro exemplares entre 2014 e 2015, seu radar Northrop-Grumman MESA detecta até 3.000 contatos aéreos e de superfície, localizados a 350km, distância que dobra quando uma área específica é selecionada. Cento e oitenta desses alvos podem rastreados simultaneamente e até 24 interceptações aéreas podem ser gerenciadas, com as informações transmitidas aos F-16 via datalink empregando o padrão norte-americano Link 16, que possui alcance máximo de 925 km.

A reação russa ao abate do Su-24M2 “Branco 83”

A reação russa ao abate do “Branco 83” ocorreu em duas direções: determinar que as aeronaves em missões de ataque também portassem mísseis ar-ar para autodefesa, o que provocou a transferência de tais surtidas do Fencer para o Su-34 “Fullback”, armado com misseis Vympel R-27 (AA-10 “Alamo”) e Vympel R-73 (AA-11 “Archer”); um aumento na cobertura antiaérea por meio do deslocamento para a área de operações do cruzador de misseis guiados “Moskva”, armado com misseis superfície-ar S-300F Fort (SA-N-6 ‘Grumble’) e do envio de elementos de uma bateria de mísseis superfície-ar S-400 Triumf (SA‑21 ‘Growler’), que vindo à Síria em um transporte Antonov An-124 “Condor”, com todos os mísseis chegando ao teatro de operações dois dias depois do abate do “Fencer-D”. Estava armado o cenário para o agravamento das tensões entre pilotos ocidentais e russos…

Continuação do artigo: Sukhoi Su-35 versus F-22 e as regras de engagamento no teatro de operações da Síria

* Sérgio Santana é Bacharel em Ciências Aeronáuticas (Universidade do Sul de Santa Catarina-UNISUL), autor do livro “Embraer 145ISR – Programa, Versões, Operadores e Emprego” (C&R Editorial, 2012) e coautor do livro “Beyond the Horizon – The History of AEW&C Aircraft” (Harpia Publishing, 2014), além de único colaborador brasileiro com artigos regularmente publicados nas prestigiosas “Air Forces Monthly” e “Combat Aircraft Monthly”