Argentina: crise econômica liquida planos de renovação das forças armadas na Era Macri

Os 17 integrantes da Comissão Unicameral de Defesa Nacional do Senado Argentino preparam a convocação do ministro da Defesa local, Oscar Aguad, para que ele informe os critérios que serão adotados nos cortes orçamentários que atingirão sua Pasta, em decorrência da atual crise econômica no país.

A sessão pode ocorrer já nesta semana, ou na próxima, caso o staff de Aguad insista em um prazo maior para a coleta de dados junto à área econômica e ao todo poderoso Gabinete de Ministros, que funciona na Casa Rosada (sede do Executivo local), como um rigoroso filtro das ações do governo.

Tendo solicitado ao Fundo Monetário Internacional (FMI) um crédito emergencial de 30 bilhões de dólares, o governo Mauricio Macri aceitou, implicitamente, as exigências da entidade, e o corte de gastos públicos é uma delas.

Em função disso o Ministério da Defesa irá formalizar a suspensão temporária dos procedimentos de aquisição de um jato de capacitação de pilotos de combate.

O Comando da Força Aérea Argentina (FAA) tem sobre a mesa a oferta do Lead-in Fighter Trainer (LIFT) T-50 Golden Eagle, proposto pela KAI (Korea Aerospace Industries), ou sua versão de combate aéreo leve FA-50, cuja importação, por conta da integração dos armamentos e da própria compra das armas, envolve valores bem mais expressivos.

Na mesma situação – de total falta de perspectivas – se encontram, agora, as propostas de caças Mirage 2000 vindas da França ou de agentes da indústria aeronáutica francesa que cuidam dessas aeronaves em outras forças aéreas (como a do Catar).

A importação de turboélices T-6C Texan II americanos, de Instrução Básica, será reavaliada.

Restando oito aeronaves para serem adquiridas, no âmbito de um contrato negociado em 2016, os argentinos tencionam manter os pagamentos de mais duas unidades, e deixar para o ano que vem a compra das seis restantes.

Em um artigo intitulado Si, la crisis también va a pegar fuerte en defensa, publicado na mídia eletrônica argentina na quinta-feira da semana passada, o jornalista Mariano Gonzalez Lacroix detalha: en algunas brigadas [da Força Aérea] ya se han recortado horas de vuelo, se han archivado planes de modernización y tambien se han suspendido negociaciones avanzadas para contar con nuevos sistemas de armas.

Encargos – De acordo com informações extraoficiais que circulam no Congresso argentino, no caso da demorada aquisição de quatro navios-patrulha oceânicos franceses da classe L’Adroit (Naval Group) – alvo, nos últimos meses, de ao menos duas conversações entre os presidentes Mauricio Macri, da Argentina, e Emanuel Macron, da França –, será feita uma revisão dos valores e encargos derivados do endividamento externo que caracterizam a operação. Objetivo: determinar se esses custos se adequam às novas metas de redução de endividamento exigidas pelo FMI.

A compra de helicópteros navais usados tipo Sikorsky Sea Hawk (SH-60) foi congelada, e os investimentos necessários à continuação do PMG no submarino TR-1700 Santa Cruz (gêmeo do sinistrado San Juan) – que conta com assessoria direta de especialistas alemães do grupo ThyssenKrupp Marine Systems – necessitarão, agora, de novas autorizações do Poder Executivo.

No Comando da Força de Submarinos, em Mar del Plata, prosseguem os estudos  para a possível encomenda, à indústria naval germânica, de dois submarinos diesel-elétricos de ataque tipo IKL-209/1400 (a um custo aproximado de 900 milhões de dólares), mas o assunto não tem prazo para avançar.

À Flota de Mar da Armada Argentina, especificamente, será requerida (1) a baixa do destructor ARA Heroina, que há meses vem sendo canibalizado (apesar de, em 2015, a Administração Cristina Kirchner ter julgado viável revitalizá-lo), e (2) do transporte multipropósito (ex-fragata) Hércules – o que deixará aos fuzileiros navais argentinos, como opção para o desembarque no mar, somente os rebocadores classe Neftegaz (capazes de colocar viaturas anfíbias sobre rodas na água por meio de gruas).

O início do programa de modernização de (três unidades) dos tanques TAM será mantido, desde que o Exército possa financiar as modificações com o seu orçamento.

Em 2016 foi noticiado que as forças armadas argentinas teriam encomendado o sistema antiaéreo Saab RBS 70 NG

Defesa Antiaérea – De acordo com informações obtidas pelo Forças Terrestres junto à assessoria da Comissão de Defesa da Câmara dos Deputados argentina, na área militar, a redução de despesas exigida pelo FMI criará diferentes faixas de programas prioritários.

A mais importante delas diz respeito aos sistemas eletrônicos e de armas elencados como indispensáveis à segurança da reunião do G-20 marcada para o período de 30 de novembro a 1º de dezembro deste ano na Argentina – a primeira a realizar-se em um país sul-americano. Nessa lista figuram mísseis e canhões antiaéreos comprados (em pequenas quantidades) para o Exército, além de helicópteros e aparelhos de comunicações.

Também deverão ser mantidos os procedimentos para o lançamento ao mar, no fim do ano (ou no início de 2019), de duas lanchas LICA, de Instrução para cadetes navais (deslocamento de 250 toneladas), que se encontram em fase final de montagem nos Estaleiros Río Santiago, na periferia de Buenos Aires.

Uns poucos processos de aquisição de itens militares de custo relativamente baixo, e que se encontram em fase final de execução, serão igualmente preservados, como a importação, ao custo de 12,5 milhões de Euros, de cinco aeronaves de combate Super Étendard Modernisé – que chegarão acompanhadas de motores de reserva, de um simulador de voo e de vários lotes de suprimentos –, e a compra de suprimentos para manter em operação dois helicópteros Sikorsky Sea King e dois quadrimotores P-3B Orion, todos da Aviação Naval.

Bem como a contratação – por cerca de 4 milhões de dólares – da empresa Sistemas Electrónicos Acuáticos (SEA), para contribuir na busca aos restos do submarino San Juan, desaparecido há cerca de 6 meses. Sediada no estado americano da Flórida, a SEA opera com capital venezuelano, e promete encontrar, no prazo máximo de 100 dias, vestígios do navio acidentado.

Por Roberto Lopes
Especial para o Forças Terrestres